terça-feira, 11 de julho de 2017

Quem anda a tentar tramar a agricultura biológica? por Alfredo Cunhal Sendim

Vincent van Gogh (1853 - 1890)
A agricultura biológica é uma prática ancestral resultante de uma Ética baseada numa atitude de responsabilidade, vivida através do respeito e da cooperação com o nosso planeta e connosco próprios. Ao longo de mais de dez mil anos, foi este o princípio que norteou a lenta tecnologia que se ia desenvolvendo para por cobro à miséria, através da planificação, da modificação e da gestão de agroecossistemas eficientes e por isso perduráveis.

Não parece ser a cooperação o que caracteriza o modelo de Agronegócio desenvolvido no século passado. Este novo modelo, a agricultura industrial a que chamamos convencional, desenvolveu-se sobre o tremendo salto tecnológico e energético que criamos. Resolveu o problema da fome criada pela 2ª guerra mundial, através de uma nova abordagem agrícola orientada para a especialização e para o aumento de produção unitária. A partir daqui, a agricultura biológica (AB, agroecologia) foi marginalizada (obrigada a ter que demonstrar que o é?) e esmagada pelos preços baixos provocados pelo aumento desmedido da produção deste novo pacote tecnológico, sem que este aumento na produção de alimentos tenha verdadeiramente contribuído para melhorar a nossa frágil realidade social. Pelo contrário, quer pelo impacto económico quer pelo social e ecológico, este modelo revela-se dia a dia um problema cada vez maior. O aumento da procura levou o agronegócio a entrar, também, na agricultura biológica. Qual é a ética que prevalece? A cooperação ou a da ganância?

Será então que é agricultura convencional os seus interessados e organizações?

Ou Serão aqueles que sem viver o conceito tentam tirar partido dele especulativamente?

Será o próprio Ministério da Agricultura ao nunca ter percebido a importância estratégica deste sector? Como contributo para a resposta atenda-se a forma como este organismo gere e credibiliza (?) os organismos privados de controlo e certificação. Ou o conteúdo oco da “Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica”, que chega com 20 anos de atraso, feito no Uber e à revelia do sector.

Será a própria Agrobio através da atitude autista e autofágica que a caracteriza desde que há anos foi assaltada pelos seus funcionários, afastando-se por completo da realidade e necessidades do sector (mas vivendo à custa dele)?

Será que somos todos nós, os consumidores saciados com a comida barata que a “economia que mata” nos proporciona?

Será a revista Visão, lançando a nódoa e a suspeita sobre todo um sector comprometido, ao não divulgar a identidade dos produtos, locais de venda e do laboratório?

Será a agenda das corporações que dependem do mito tecnológico, cada vez mais difícil de promover racional e emocionalmente? É curioso o percurso do jornalista Luís Ribeiro: OGM´s são ótimos; Não nos preocupemos com o Ambiente que não vale a pena; E agora, é você o palerma que paga para ser enganado no bio?

Será o senhor investigador e ex-bastonário da ordem dos biólogos, bastião da ética para vida, Pedro Fevereiro ao afirmar sem citar fontes que agricultura biológica não pode alimentar o mundo? O que nós hoje sabemos é que a agricultura industrial não o alimentará certamente, leia-se por exemplo o relatório A/HRC/25/57 das ONU de Olivier de Suster. Porque será que este reputado professor de tecnologia química nos quer impingir, do alto do seu estatuto, a ideia de que tudo é natural, que tudo é bom, que tudo dá igual, que todos os modos de produção são extraordinários e que as consequências dos mesmos para o ambiente, para a nossa saúde, para a dignidade da população humana,…, são inócuas?

Intuo que no fim dos tempos a ética que está por trás da criação do projeto vida, a que pertencemos, prevalecerá. A ética da Responsabilidade, do respeito e da cooperação.
Até lá, que venham todos! Desde que seja para evoluir….

Alfredo Cunhal Sendim
Agricultor

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