sexta-feira, 16 de março de 2007

Leônidas Arruda- poeta irreverente e amante da Natureza


Página Pessoal Leônidas Arruda 
 Resíduos da Infância I
 O fogão aceso derretia o breu da noite e a aurora mostrava sua cara-de-pau. O dia começava nascer na garganta do galo. Crista-de-galo cantava no bico do sabiá-da-mata. Boneca-de-milho montava sabiá-cavalo para galopar com sol ou chuva no cabresto. Sabiá-cachorro cantava na laranjeira e os espinhos rosnavam nos galhos. Rã-cachorro grunhia no capinzal. Cachorro-de-padre não tinha o que fazer. Peixe-cadela desamarrava nó-de-cachorro. II O dia amoitava nos oiteiros. O sapo-gigante chamava chuva. Sapo-ferreiro fazia espeto de pau. A cigarra pedia sol. Passarinho dizia " bem-te-vi." A cotia roía o angu-de-caroço da manhã. Cipó titica amarrava as horas. O dia era uma lonjura. Panela de barro cozinhava o galo. Maria-da-mata matava joão-de-pau. Maria-mole morria de preguiça. Maria-sem-vergonha ficava na moita com joão-do-mato. Joaninha-guenza brincava com maria-seca. As horas chegavam à pé e onze-horas floriam o terreiro. Um bando de periquito-santo fazia o nome-do-padre no pé de flor-da-paixão. III A tarde chegava ciscando o tédio e bicando farelos do meio-dia. As vezes trazia rios de chuva ou vinha em canoa de nuvem furada carregada de temporal. Algumas coisas só chegavam pela hora da morte. A noite era bicho-do-mato. Durante o dia dormia no oco do pau e só saía do buraco quando o mata-pasto fechava as folhas e o bico-de-brasa acendia o rabo dos vaga-lumes. Mato adentro sessenta-feridas e sete-em-rama. IV Naquelas horas louva-a-deus bênção-de-deus pau-santo capim-santo periquito-santo flor-do-espírito-santo árvore-santa árvore-de-natal pau-de-incenso olho-de-santa-luzia lágrima-de-nossa-senhora lava-pés lavandeira-de-nossa-senhora santa-fé erva-santa santa-maria erva-de-santa-maria cobra-maria maria-minha maria-rita maria-de-barro maria-já-é-dia maria-com-a-vovó joão-de-cristo flor-das-almas anjo-bento gavião-padre flor-de-padre bicho-de-frade beijo-de-freira cabeça-de-monge flor-de-cardeal erva-de-santa-lúcia quina-de-santa-catarina coruja-católica coroa-de-cristo pomba-de-santa-cruz capela-de-viúva barata-de-sacristia barata-de-igreja coruja-de-igreja bem-te-vi-de-igreja caba-de-igreja piolho-de-são-josé cana-de-são-paulo erva-de-são-cristóvão cordão-de-são-francisco espada-de-são-jorge cipó-de-são-joão barba-de-são-pedro melão-de-são-caetano fava-de-santo-inácio espinho-de-santo-antônio espinho-de-judeu espinheiro-de-cristo flor-da-quaresma cinco-chagas cipó-cruz flor-de-jesus espinho-de-cristo e ora-pro-nóbis se ajoelhavam para rezar. Goiânia/GO 16/01/2005.

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