terça-feira, 27 de julho de 2004

CARTA DA TERRA

"A Carta da Terra parte de uma visão integradora e holística. Considera a pobreza, a degradação ambiental, a injustiça social, os conflitos étnicos, a paz, a democracia, a ética e a crise espiritual como problemas interdependentes que demandam soluções includentes. Ela representa um grito de urgência face as ameaças que pesam, sobre a biosfera e o projeto planetário humano. Significa também um libelo em favor da esperança de um futuro comum da Terra e Humanidade.” - Leonardo Boff 

HISTÓRICO: -1992: Durante a Rio-92 houve a proposta de uma Carta da Terra discutida mundialmente por Organizações Não Governamentais e Governos -Não houve consenso entre os Governos, pois o texto não estava suficientemente maduro -Em seu lugar adotou-se a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento -Cruz Verde Internacional e Conselho da Terra, apoiadas pelo governo holandês, assumiram o desafio de elaborar uma Carta da Terra -1995: Encontro de 60 representantes de diversos áreas em Haia, na Holanda. Foi criada a Comissão da Carta da Terra para organizar uma consulta mundial durante 2 anos -Resultado: “Princípios de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Sustentado: Resumo e Reconhecimento -1997: Sob a coordenação de Maurice Strong (ONU) e Mikhail Gorbachev (Cruz Verde Internacional) foi redigido o 1º esboço da Carta da Terra -1998 a 1999: Amplo debate e discussão em todos continentes e em todos os níveis, de escolas primárias a ministérios). 46 países e mais de 100.000 pessoas envolvidas -1999: Steven Rockfeller escreveu o 2º esboço -12 a 14 de março de 2000: a Carta da Terra foi ratificada.



segunda-feira, 26 de julho de 2004

Citação por Bradley Millar


It is usually cited as Bradley Miller and the first source I located was is this book: 

JOHN ROBBINS, author of the bestseller Diet for a New America 1987 

Charles Kuralt's America - Page 49 
by Charles Kuralt - Travel - 1995 - 279 pages 

also has the quote: 

"Teaching a child not to step on a caterpillar is just as important to the child as to the caterpillar. It's wrong to exploit the lives of animals for our entertainment" 

One needs to look at these books.

domingo, 25 de julho de 2004

Enfrentar a globalização

Estou a ler o livro mais recente do filósofo Peter Singer UM SÓ MUNDO-A ÉTICA DA GLOBALIZAÇÃO.Este livro, publicado pela Editora gradiva, que é inteiramente dedicado aos desafios éticos colocados pela globalização, baseia-se num conjunto de conferências proferidas na Universidade de Yale em Novembro de 2000, tendo sido revisto após o 11 de Setembro.Claro que é de leitura obrigatória! No que respeita à regulação do comércio mundial, caracterizado por uma globalização predatória, Singer preparou um capítulo inteiro, o capítulo 3, "Uma Só Economia", que consiste quase exclusivamente numa avaliação da política de comércio livre protagonizada pela Organização Mundial do Comércio (OMC).Sobre a OMC pesam quatro principais acusações: de enfraquecer a soberania nacional, de não ser democrática, de deixar as pessoas mais pobres numa situação ainda pior e de colocar as preocupações económicas acima das preocupações com o ambiente, o bem-estar dos animais e os direitos humanos. Singer discute cada uma destas acusações de uma forma escrupulosamente cuidada, mostrando-nos como esta organização, embora precise de reformas urgentes, pode desempenhar um papel positivo na globalização.

Por outro lado considero que ao educarmos os jovens e nossos filhos devemos ter em atenção ao consumo responsável...principalmente fugirmos da alienação de uma pubilicidade predatória.


A Desordem da Organização Mundial do Comércio

Não é possível uma melhor economia? Penso que podemos optar.

sexta-feira, 23 de julho de 2004

Ambiente Total e Ecologia Integral

A concepção e construção epistemológica da Ecologia actual para uma OIKOS do sec.XXI

1. O QUE É MEIO AMBIENTE

Olimpio Araujo Junior

Existe atualmente uma grande discussão sobre a utilização do termo “meio ambiente”, pois há uma forte tendência entre autores em se considerar o termo como pleonasmo ou redundância. Eu por exemplo, adotei o termo “Ambiente Total”, com a intenção de abranger os ambientes natural e antrópico (construído pelo homem), incorporando também os demais ambientes, porém, apenas como um termo ilustrativo, sem a intenção de criar uma nova discussão , afinal de contas, não precisamos de mais discussões, e sim de mais soluções.

Outros autores, utilizam unicamente o termo “ambiente”, e defendem com “unhas e dentes” a não utilização de “meio”. Segundo Valenti, em seu livro: “Las distintas visiones geográficas de lãs relaciones entre natureza y hombre“ (Barcelona, 1984), o termo “meio ambiente” provém da tradução do francês “milieu ambience”, utilizado inicialmente por naturalistas e geógrafos, onde “milieu” (ou “meio”), designa o lugaronde está ou onde se movimenta um ser vivo qualquer, e “ambience” (ou “ambiente”), refere-se ao que rodeia o ser. Particularmente, prefiro concordar com os demais autores, pois esta explicação de Valenti parece não convencer, afinal de contas, analisando bem, ambiente também é o lugar onde está ou se movimenta o ser. Uma palavra completa a outra, mas qualquer uma pode ser utilizada de forma isolada, sem perder o sentido que se quer passar, por isso também é possível se falar em “meio” sem precisar se falar a palavra “ambiente”, o importante seria especificar quando necessário, a qual meio ou qual ambiente está se referindo: ambiente urbano (ou meio urbano), ambiente aquático (ou meio aquático), ambiente natural (ou meio natural). Atualmente, temos que considerar até mesmo o ambiente virtual, que já é uma realidade em nossos dias. A discussão sobre meio ambiente com certeza não acabará tão facilmente, pois quando quase todos estão convencidos de uma determinada teoria, surge um novo teórico com novas idéias e novos seguidores. O importante é entendermos que o termo “meio ambiente” não está errado, afinal de contas ele já foi historicamente legitimado pela ciência e pelo senso comum.

* O autor é coordenador da Rede de Informações Ambiente Total – www.ambientetotal.pro.br

2. POR UMA ECOLOGIA INTEGRAL

Paulo Botelho
Morena, alta e magra, descendia de espanhóis e africanos. Erudita, falava francês com desenvoltura. Não gostava de cozinhar, mas era capaz de fazer um frango com quiabo como ninguém. Leitora voraz dos clássicos, entre eles Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de la Mancha, gostava de reproduzir o que lia para todos da família, sempre na hora do jantar. Assim era minha avó paterna Maria de Luna Botelho. Através dela, ainda menino, fiquei com a idéia de que Dom Quixote era um fidalgo corajoso e sonhador, que saia pelo mundo para consertar tudo o que estivesse errado: proteger os órfãos, defender os perseguidos, impedir maus-tratos contra os humildes, estabelecer a justiça e, sobretudo, preservar a vida na Terra. "Não são gigantes, mas apenas moinhos de vento com suas pás", explicava ela parafraseando Sancho Pança, o fiel escudeiro de Dom Quixote. A partir dessas lembranças recorrentes, fiquei pensando numa Ecologia Integral, em seus aspectos pessoal, social e ambiental.

O aspecto pessoal - ou a paz consigo mesmo - tem como meta a saúde física, emocional, mental e espiritual do ser humano como estratégia para o desenvolvimento da paz. O aspecto social - ou a paz com os outros - busca a integração do ser humano com o exercício da cidadania e dos direitos humanos; a cultura da não-violência e a ética da diversidade. O aspecto ambiental - ou a paz com a natureza - vislumbra a integração do ser humano com a natureza, facilitando o processo de conscientização e sensibilização, no sentido de redução do consumo e do desperdício.

Nós, os ambientalistas, temos um pouco desse Dom Quixote. Somos aqueles que procuram fazer brotar uma flor do impossível chão! Não nos importa saber quantas guerras temos que vencer por um pouco de paz!

Quando me entristeço com a vida, seus percalços e dificuldades, tenho o costume de procurar olhar a Terra de fora da Terra. Assim como os astronautas. De lá, de suas naves espaciais ou da Lua, como testemunharam vários deles, a Terra aparece como resplandecente planeta azul e branco que cabe na palma da mão! Daquela perspectiva, a Terra e todos os seres vivos emergem como uma única identidade. Ela emerge como terceiro planeta de um sol que é apenas um entre 100 bilhões de outros do universo. Universo que, possivelmente, é apenas um entre outros milhões paralelos e diversos do nosso. E tudo segue com tal organização que permite a nossa existência aqui e agora. Caso contrário, não estaríamos mais por aqui.

Astrônomos americanos anunciaram, em julho de 2003, a descoberta de um planeta, muito semelhante a Júpiter, na órbita de uma estrela muito semelhante ao Sol e a apenas 90 anos-luz da Terra. Praticamente um vizinho, do ponto de vista cósmico. É mais um indício de que sistemas planetários, como o nosso, são uma constante no Universo. E não há razão para não ser. Conclui-se, portanto, que pode ser que se encontre, também, um planeta parecido com a Terra. E, se existem outras Terras, provavelmente deve haver outras vidas. - Das pás dos moinhos à paz na Terra!

quinta-feira, 22 de julho de 2004

QUAL É A ÁRVORE QUE CORRESPONDE AO SEU ANIVERSÁRIO?

Um saber mitológico proveniente da cultura celta, atribuia a um determinado período do aniversariante uma árvore. Cada árvore então definia a personalidade e caracter do nasciturno. Eu sou Pinheiro.Qual é a tua árvore?
Num momento em que se assiste à requalificação dos Parques Urbanos até com estudos de "conceituados" arquitectos da praça pública e que tão teimosamente menosprezam as árvores, espero conseguir um outro objectivo: amemos as árvores!Juntem-se ao nosso protesto pela salvaguarda das árvores nas cidades, jardins públicos e exijam a criação de mais espaços verdes . Não se deixem ficar de braços cruzados.

Descobre qual é a tua Árvore

quarta-feira, 21 de julho de 2004

AÇORES COM O BIOTERRA | BIOTERRA COM OS AÇORES

No domingo estive a fazer um percurso pela net à procura de imagens dos Açores para falar um pouco das Ilhas, do papel directo ou indirecto que os açorianos, que considero-os muito sensíveis ao Ambiente e que têm desempenhado ao longo dos anos esforços para preservar o seu património histórico e natural, em razoável harmonia com a pressão turística e sócio-económica.
Como sabem contacto estreitamente com os editores dos ( excelentes ) blogues Ondas e Professorices, também açorianos e meus amigos, unidos que estamos em defender o Ambiente e a Educação.
Nessas imagens que pesquisei, seleccionei esta belíssima foto do blogue Ilhas ( que irei adicionar na minha secção Terra Fértil) e qual não foi o meu espanto quando vi o BioTerra em grande destaque no Portal dos Açores.Do Portal, a nota mais positiva está na filosofia que presidiu à sua criação, pois é um portal muito aberto e tolerante, demonstrando grande diversidade de temas, sempre muito actualizados e as entidades associadas ou as quais é feita a referência. Destaco também o fórum, possibilidades de chat e os bonitos postais electrónicos, de diversos temas e que se podem enviar a amigos.
A todos os açorianos , em especial e aos meus leitores, estarei sempre convosco cumprindo o espírito da Ecologia Integrada e Desenvolvimento Sustentável .Um abraço.



terça-feira, 20 de julho de 2004

QUEREMOS SER OUVIDOS

"POBRE PAÍS, O NOSSO" DIZ JPACHECO PEREIRA. EM RELAÇÃO AOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS DE ENGENHARIA POLÍTICA PORTUGUESA E EUROPEIA, OS CIDADÃOS EXIGEM QUE SEJAM OUVIDOS.

Se o nosso Primeiro-Ministro for nomeado presidente da Comissão Europeia e o nosso Presidente da República não decidir pelas eleições aí é que teremos instabilidade e mais crises...Uma Europa demasiada neoliberal, federalista e PERSISTIR NUMA POLÍTICA PETRODEPENDENTE não augoura de nada de bom para o Ambiente e a Humanidade. 

Depois os políticos da Europa, especialmente CEE, não se queixem da enorme abstenção, não se queixem do alheamento dos seus votantes...DEVE-SE A TANTA MENTIRA... 
Tempos MUITO INCERTOS estes...criados por MAUS POLÍTICOS, cujas decisões eles não medem as consequências socio-ambientais a médio e longo prazo.... 

Quando é que os políticos ouvem com MUITA ATENÇÃO os avisos dos historiadores que os alertam das consequências do autismo político, dos sociólogos que os alertam a compreender os fenómenos culturais e ouvir os ecologistas que anos após anos suplicam aos governos que mudem radicalmente as opções energéticas e encetem reais esforços de solidariedade ambiental???? 

De facto o PPE e quando a direita está no poder habitualmente não gosta muito de se submeter a referendos,críticas e escrutínios. Exemplar é o caso nacional de extinção das direcções regionais do INE...

segunda-feira, 19 de julho de 2004

I HAVE A DREAM, TOO.

QUAL É A VIA PARA O AMOR UNIVERSAL E O BENEFÍCIO COMUM?

É CONSIDERAR OS PAÍSES DOS OUTROS COMO O NOSSO PRÓPRIO PAÍS.


Mozi,Filósofo Chinês, séc.V D.C.

Oikos

domingo, 18 de julho de 2004

Desertificação-conceitos básicos; acções e Agenda 21

No dia 17 de junho, de todos os anos, comemora-se o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca.

A Desertificação é definida como processo de destruição do potencial produtivo da terra nas regiões de clima árido, semi-árido e sub-úmido seco. O problema vem sendo detectado desde os anos 30, nos Estados Unidos, quando intensos processos de destruição da vegetação e solos ocorreu no Meio Oeste americano.

Muitas outras situações consideradas como graves problemas de desertificação foram sendo detectadas ao longo do tempo em vários países do mundo. América Latina, Ásia, Europa, África e Austrália oferecem exemplos de áreas onde o homem, através do uso inadequado e/ou intensivo da terra, destruiu os recursos e transformou terras férteis em desertos ecológicos e econômicos.

A medida que o estudo sobre a origem dos desertos evoluiu, surgiram conceitos a respeito do assunto:

Deserto: região de clima árido; a evaporação potencial é maior que a precipitação média anual. Caracteriza-se por apresentar solos ressequidos; cobertura vegetal esparsa, presença de xerófilas e plantas temporárias.

Desertificação: origina-se pela intensa pressão exercida por atividades humanas sobre ecossistemas frágeis, cuja capacidade de regeneração é baixa.

Processo de desertificação: diz respeito a atividade predatória que irá conduzir a formação de desertos.

Área de desertificação: é a área onde o fenômeno já se manifesta.

Área propensa à desertificação: área onde a fragilidade do ecossistema favorece o processo de instalação da desertificação.

Deserto específico: a desertificação já se manifesta em grau máximo.
As causas mais freqüentes da desertificação estão associadas ao uso inadequado do solo e da água no desenvolvimento de atividades agropecuárias, na mineração, na irrigação mal planejada e no desmatamento indiscriminado.

Principais problemas:
a.. vulnerabilidade às secas, que impactam diretamente a agricultura de
sequeiro e pecuária
b.. fraca capacidade de reorganizar a estrutura produtiva do sertão
c.. desmatamento resultante da pecuária extensiva e do uso de madeira para
fins energéticos
d.. problemas graves de desertificação já identificados
e.. sinalização dos solos decorrente do manejo inadequado na agricultura e no
pastoreiro
f.. perda de dinamismo de atividades industriais e comerciais
g.. precária conservação da infra-estrutura rodoviária
h.. precário atendimento dos serviços de comunicação
i.. precário sistema de difusão tecnológica
j.. baixa produção científica e tecnológica para as necessidades do semi-árido
k.. deficiência nos níveis de capacitação da mão-de-obra rural, industrial e
do comércio
l.. fragilidade institucional
m.. gestão municipal sem planejamento e comprometimento com objetivos a longo
prazo.
A desertificação ocorre em mais de 100 países do mundo. Por isso é considerada um problema global. No Brasil existem quatro áreas, que são chamadas núcleos de desertificação, onde é intensa a degradação. Elas somam 18,7 mil km² e se localizam nos municípios de Gilbués, no Piauí; Seridó, no Rio Grande do Norte; Irauçuba, no Ceará e Cabrobó, em Pernambuco. 
As regiões áridas, semi-áridas e subúmidas secas, também chamadas de terras secas, ocupam mais de 37% de toda a superfície do planeta, abrigando mais de 1 bilhão de pessoas, ou seja, 1/6 da população mundial, cujos indicadores são de baixo nível de renda, baixo padrão tecnológico, baixo nível de escolaridade e ingestão de proteínas abaixo dos níveis aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde - OMS. Mas a sua evolução ocorre em cada lugar de modo específico e apresenta dinâmicas influenciadas por esses lugares.

As regiões sul-americana e caribenha têm inúmeros países com expressivas áreas de seus territórios com problemas de desertificação. Os mais significativos são Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Cuba, Peru e México.

Possíveis causas da desertificação podem ser apuradas.
O desmatamento, que além de comprometer a biodiversidade, deixa os solos descobertos e expostos à erosão, ocorre como resultado das atividades econômicas, seja para fins de agricultura de sequeiro ou irrigada, seja para a pecuária, quando a vegetação nativa é substituída por pasto, seja diretamente
para o uso da madeira como fonte de energia (lenha e carvão).

O uso intensivo do solo, sem descanso e sem técnicas de conservação, provoca erosão e compromete a produtividade, repercutindo diretamente na situação econômica do agricultor. A cada ano, a colheita diminui, e também a possibilidade de ter reservas de alimento para o período de estiagem. É comum
verificar-se, no semi-árido, a atividade da pecuária ser desenvolvida sem considerar a capacidade de suporte da região, o que pressiona tanto pasto nativo como plantado, além de tornar o solo endurecido, compacto.

A irrigação mal conduzida provoca a salinização dos solos, inviabilizando algumas áreas e perímetros irrigados do semi-árido, o problema tem sido provocado tanto pelo tipo de sistema de irrigação, muitas vezes inadequado às características do solo, quanto, principalmente, pela maneira como a atividade é executada, fazendo mais uma molhação do que irrigando.

Além de serem correlacionados, esses problemas desencadeiam outros, de extrema gravidade para a região. É o caso do assoreamento de cursos d'água e reservatórios, provocado pela erosão, que, por sua vez, é desencadeada pelo desmatamento e por atividades econômicas desenvolvidas sem cuidades com o meio ambiente.

Consequências da desertificação:

Natureza ambiental e climática
Como perda de biodiversidade (flora e fauna), a perda de solos por erosão, a diminuição da disponibilidade de recursos hídricos, resultado tanto dos fatores climáticos adversos quando do mau e a perda da capacidade produtiva dos solos em razão da baixa umidade provocada, também, pelo manejo inadequado da cobertura vegetal.

Natureza social
Abandono das terras por partes das populações mais pobres, a diminuição da qualidade de vida e aumento da mortalidade infantil, a diminuição da expectativa de vida da população e a desestruturação das famílias como unidades produtivas.
Acrescente-se, também, o crescimento da pobreza urbana devido às migrações, a desorganização das cidades, o aumento da poluição e problemas ambientais urbanos.

Natureza econômica
Destacam-se a queda na produtividade e produção agrícolas, a diminuição da renda do consumo das populações, dificuldade de manter uma oferta de produtos agrícolas de maneira constante, de modo a atender os mercados regional e nacional, sobretudo a agricultura de sequeiro que é mais dependente dos fatores climáticos.

Natureza político institucional
Há uma perda da capacidades produtiva do Estado, sobretudo no meio rural, que repercute diretamente na arrecadação de impostos e na circulação da renda e, por outro lado, criam-se novas demandas sociais que extrapolam a capacidade do Estado de atendê-las.

Diante de tudo o que foi abordado, conclui-se que o processo de recuperação de uma área desertificada é complexo, pois necessita de ações capazes de controlar, prevenir e recuperar as áreas degradadas. Paralelamente a estas ações, cabe uma maior conscientização política, econômica e social no sentido de minimizar e/ou combater a erosão, a salinização, o assoreamento entre outros.

Está previsto no Capítulo 12 da Agenda 21, a criação de seis áreas-programas para combate a desertificação com ações regionais.

Fonte: CAVALCANTI, E. Para Compreender a Desertificação: Uma abordagem didática
e integrada. Instituto Desert. Julho de 2001.

Fonte 2: Ambientebrasil - 18/05/2004

sábado, 17 de julho de 2004

Dios ke te crew - Profecia




deja deja..
deja que la natura ria
pro-fe-cia
comien comien comienza la profecia..

[estribillo][1,2,3]
Cando chegue o dia
no que non poidas respirar
no medio ambiente acordaraste desta profecia..

Cando chegue o dia
no que non poidas comer comida de verdad
acordaraste desta profecia..

Cando chegue o dia
no que non poidas beber auga potable
acordaraste desta profecia..


sexta-feira, 16 de julho de 2004

SOS BRASIL - ÁREAS PROTEGIDAS E OS DIREITOS TERRITORIAIS INDÍGENAS EM PERIGO

O meu amigo e também biólogo Marco Pozzana, editor do Meio Ambiente Urgente é incansável, tendo colocado no seu blog vários apelos e campanhas por um Brasil mais verde e solidÁrio.Tenho estado sempre muito atento às suas campanhas.
Neste momento o Brasil, a Amazónia e os direitos indígenas estão definitivamente ameaçados se a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 38/99, do senador Mozarildo Cavalcanti (PPS/RR)for para a frente. Várias ONG brasileiras estão então a organizar a CAMPANHA ÁREAS PROTEGIDAS EM PERIGO e verifiquei que pode ser alargada a nível internacional. Vamos apoiar esta causa. Assine a petição aqui.


Rio Amazonas,Brasil (ARC-NASA-1992)

quinta-feira, 15 de julho de 2004

NOVO D de DEMOCRACIA: DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Ainda é a aurora....mas já existe no nosso País uma ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL PARA PORTUGAL (ENDS)

FONTE:Portal do Governo

Desenvolvimento sustentável: «Desenvolvimento que satisfaça as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem as suas próprias necessidades»
"Development that meets the needs of the present without compromising the ability of future generations to meet their own needs"
«O nosso Futuro Comum», Comissão Mundial para o Ambiente e o Desenvolvimento, 1987
"Our Common Future", World Commission on Environment and Development, 1987


O XV Governo Constitucional atribuiu a maior importância à preparação de uma Estratégia de Desenvolvimento Sustentável para Portugal (ENDS). Assim, na sequência de um processo que teve início em Abril de 2002, e do convite formulado em Janeiro deste ano por S. Exa. o Primeiro﷓Ministro a um conjunto de personalidades de reconhecido mérito nas áreas da Coesão Social, Desenvolvimento Económico e Protecção do Ambiente - Drª Isabel Mota, Professores Mário Pinto, Jorge Vasconcellos e Sá, e Viriato Soromenho Marques e Dr. Félix Ribeiro - para que preparassem a "visão estratégica" que iria enquadrar a ENDS e a sua implementação, foi hoje, 2 de Julho de 2004, entregue um documento que corresponde a essa solicitação.

A proposta de ENDS agora apresentada tomou em consideração a versão apresentada em 2002 (ENDS 2002), as recomendações que resultaram da discussão pública então realizada e os painéis sectoriais e mesas redondas que se lhe seguiram. Foi também desenvolvida com a colaboração dos Ministérios envolvidos e, na maior parte dos casos, com o envolvimento directo dos membros do Governo.

Este documento corresponde também aos objectivos de
- reformular e completar o documento anterior, reequilibrando as três dimensões do Desenvolvimento Sustentável - económico, social e ambiental;
- permitir cumprir os compromissos assumidos por Portugal em termos de Desenvolvimento Sustentável no âmbito das Nações Unidas e da União Europeia;
- servir de quadro de referência a futuros exercícios de planeamento, designadamente à negociação do futuro pacote financeiro de fundos estruturais;
- conferir coerência aos vários Planos e programas sectoriais, articulando os vários instrumentos já elaborados ou em fase de elaboração;
- e, sobretudo, transmitir uma visão para o País, para a próxima década, traçar um "fio condutor" e metas para o desenvolvimento sustentável de Portugal, e constituir, simultaneamente, um documento "aberto", adaptável a mudanças e conjunturas.

Esta Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável tem como Grande Desígnio "fazer de Portugal, no horizonte de 2015, um dos países mais competitivos da União Europeia, num quadro de qualidade ambiental e de responsabilidade social".
Para isso será necessário prosseguir um conjunto de seis grandes Objectivos:
1. Qualificação dos Portugueses em Direcção à Sociedade do Conhecimento
2. Economia Sustentável, Competitiva e Orientada para Actividades do Futuro
3. Gestão Eficiente e Preventiva do Ambiente e do Património Natural
4. Organização Equilibrada do Território que Valorize Portugal no Espaço Europeu e que Proporcione Qualidade de Vida
5. Dinâmica de Coesão social e de Responsabilidade Individual
6. Papel Activo de Portugal na Cooperação Global
Cada um destes Objectivos desdobra-se num grupo de Vectores Estratégicos e estes, por sua vez, em Linhas de Orientação, Indicadores e Metas que, no seu conjunto, são a base do Plano de Implementação da Estratégia (PIENDS) que, através de acções e medidas (Fichas Estratégicas), concretizará o grande desígnio aqui apresentado.
O documento apresentado inclui ainda um Diagnóstico para a Sustentabilidade em Portugal, uma análise do que poderá ser o futuro de Portugal e propostas para a Aplicação e Gestão da Estratégia, nomeadamente a criação de uma Unidade de Missão para o Desenvolvimento Sustentável, tutelada pelo Primeiro-Ministro.

O trabalho realizado e reunido em dois volumes "Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável" e "Plano de Implementação da Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável: Fichas Estratégicas" deverá agora ser apresentado ao Conselho de Ministros, dando lugar a uma nova fase de trabalho que corresponderá a completar algumas áreas ainda em falta, afinar conteúdos e harmonizar metas.

Tendo presente que a ENDS só terá possibilidades de ter êxito se for entendida como um desafio mobilizador da sociedade portuguesa, dos diferentes parceiros sociais e, individualmente, de cada cidadão em particular, disponibiliza-se desde já, no "Portal do Governo", o documento de "Estratégia", sem prejuízo de vir a ser promovida a sua divulgação através de "mesas redondas" ou "seminários" e de serem solicitados contributos a parceiros sociais e personalidades de mérito.

A responsável máxima é a Eng.ª Teresa Gamito, que é assessora do ( ex-) Primeiro-Ministro


Assessoria para Ambiente, Ordenamento e Transportes

Engª. Teresa Maria Gamito - Adjunta
Secretária (a mesma da Assessoria Económica)
Rua da Imprensa à Estrela, 4 - 1200-888 Lisboa
Telef.: (+351) 213 923 500
Correio electrónico: gpm@pm.gov.pt
Presença na Internet: Este Portal

Um leitor desabafou-me o seguinte :quase 2 anos após a Cimeira de Joanesburgo, nesta altura já devíamos estar a discutir não em que ponto está a ENDS mas sim qual o ponto da situação actual e para quando o 2º relatório nacional de desenvolvimento sustentável (baseado num conjunto alargado de indicadores).

quarta-feira, 14 de julho de 2004

Mais resultados do Programa Científico Observa - Ambiente, Sociedade e Opinião Pública

Cidadãos querem do Estado mais actuação no ambiente

Inquérito Estudo sociológico indica que a poluição de rios e ribeiras figura no
topo das preocupações dos portugueses. No dia-a-dia, o problema mais apontado é a poluição do ar

Eduarda Ferreira, JN

Os portugueses são muito críticos para com a actuação do Estado no domínio do ambiente: 82% consideram-no incapaz de desempenhar bem essa tarefa, segundo os resultados do II Inquérito Nacional "Os Portugueses e o Ambiente". Entre as medidas mais preconizadas pelos cidadãos ouvidos contam-se a fiscalização, proibições e aplicação de multas a prevaricadores.

O programa científico Observa - Ambiente, Sociedade e Opinião Pública,
desenvolvido no âmbito do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e
Empresas, divulgou, ontem, os resultados de um segundo inquérito destinado a
avaliar as atitudes dos portugueses em relação ao ambiente. Com um intervalo de
três anos em relação ao primeiro, e sendo elaborado sobre dados colhidos em 2000, este estudo não assinala evoluções muito profundas. Uma das poucas marcantes, segundo um dos autores do estudo, Joaquim Gil Nave, consiste na adesão aos mecanismos de reciclagem que entretanto foram facilitados (vidrões,ecopontos).

Por outro lado, admite o mesmo investigador, os receios continuam a ser remetidos para o abstracto e para o global, tendo as pessoas dificuldade em ver os problemas existentes ao pé da porta. Apagar a luz em divisões não utilizadas e não lavar loiça ou dentes com a torneira a correr ainda são as atitudes mais frequentemente assumidas em prol do ambiente(cerca de 50%).

Para 65% dos inquiridos, a paisagem que mais os choca é a de um rio poluído com peixes mortos, seguida de uma floresta a arder e uma maré negra. Uma lixeira a céu aberto impressiona-os menos (36,4%) e ainda menos resíduos tóxicos derramados no solo (29%). No dia-a- dia, as pessoas sentem mais o problema da poluição do ar e maus cheiros (29%) e não deixam de assinalar o caos urbano e o desordenamento. Pessimistas, consideram que tudo piorará nos próximos dez ou 15 anos: trânsito, qualidade do ar e água, ruído, entre muitos outros problemas. Face a este quadro, 45% dos inquiridos afirmaram desejar
viver noutro local.


Na periferia das grandes cidades situam-se os mais descontentes. Da totalidade,a maior parte sonha com jardins públicos e árvores para a envolvência das casas, valorizando uma "natureza domesticada". Este era um desejo já referenciado no primeiro estudo. Uma percentagem significativa mudaria para o campo ou pequenas e médias cidades, mas não o faz por falta de oportunidades de emprego, serviços de saúde, escolas e acessibilidades.

Poucas mudanças houve nas iniciativas pessoais

Os portugueses são críticos, isso são, para com as condições ambientais em que vivem. Mas, assinalam as conclusões do inquérito, revelam "uma certa bonomia face à realidade nacional, quando comparada com a dos restantes países europeus". Relativamente ao inquérito anterior, a degradação ambiental do país é vista com cores mais negras. A preocupação é mais forte, talvez por haver mais informação. Segundo o coordenador deste trabalho afirmou ao JN, mantém-se o desfasamento entre atitude e preocupação. Uma coisa é o que os portugueses pensam, outra as iniciativas que tomam para mudar o que dizem estar mal.

O sociólogo João Ferreira de Almeida destaca uma diferença entre os resultados do inquérito anterior e agora divulgado: a agricultura, agora, já surge com a sua quota de responsabilidade na poluição;antes, a visão deste sector era mais bucólica.

terça-feira, 13 de julho de 2004

O INSUSTENTÁVEL ATRASO DO NOSSO PAÍS

Os factos falam por si!! Autarcas que desconhecem a Agenda 21 local e o baixo grau de escolaridade da nossa população, como é possível fazer passar a mensagem de forma eficaz que é necessário uma mobilização colectiva em prol de um futuro sustentável?

AUTARQUIAS, AMBIENTE E QUALIDADE DE VIDA


A maioria dos autarcas não faz a mínima ideia do que seja a Agenda 21 Local.
Esta é a conclusão a que chegou um grupo de investigação do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, que tentou traçar o perfil dos primeiros presidentes de Câmara do século XXI, no âmbito do programa Observa. Apenas 9,8 por cento deram uma resposta que se aproxima do que é esta ferramenta participada de desenvolvimento sustentável a longo prazo.

O resultado decorre de um inquérito lançado a um universo de 201 autarcas dos quais apenas responderam 82. No universo de respostas, verificou-se que o Plano Director Municipal (PDM) é o único dos instrumentos de ordenamento considerado pelos presidentes da Câmara.

Documentos como a Rede Natura 2000 são, de acordo com um terço dos que responderam ao inquérito, tendencialmente negativos. 62 por cento dos inquiridos tem opinião desfavorável sobre a Reserva Ecológica Nacional baixando para os 57 por cento o número dos que têm igual posição em relação à Reserva Agrícola Nacional.

Ainda de acordo com o grupo de investigadores, só 30 por cento dos autarcas entendem sem reservas a participação pública nos processos de tomada de decisão. No entanto, mais de 31 defendem que a complexidade das matérias impede ou dificulta a participação. 40 por cento dos presidentes da Câmara considera que as decisões estão reservadas aos eleitos.

No que toca ao financiamento de custos do desenvolvimento sustentável, cerca de metade dos inquiridos defendem que este toca ao Orçamento de Estado (48,8 por cento), ao orçamento autárquico (50 por cento) e Ministério do Ambiente (53,7 por cento).

FONTE: Ambiente Online,12 de Julho


POPULAÇÃO, EDUCAÇÃO E QUALIDADE DE VIDA

O economista Eugénio Rosa ,do Instituto Bento de Jesus Caraça, produz regularmente estudos criteriosos sobre grandes problemas nacionais. A propósito da utilização dos fundos comunitários para a formação profissional por parte do governo cessante e trabalhando dados do EUROSTAT, Eugénio Rosa mostra que Portugal é, após o alargamento da UE a 25 países, o último em qualificações. Assim, e citando o estudo, 79,4 por cento da população activa portuguesa fica-se pela escolaridade básica ou menos, 11,3 por cento pelo ensino secundário e apenas 9,4 por cento pelo superior. A percentagem média de activos com formação superior nos 15 anteriores países da UE é de 21,8 por cento e nos 10 recentes de 14,5.

Esta constatação merece séria ponderação por parte de um discurso político que tem questionado a procura social do ensino superior em Portugal. Os 10 novos países aderentes superam os 15 mais desenvolvidos em formação, ao nível do ensino secundário. Com efeito, 66,2 por cento dos trabalhadores do leste têm estudos de nível secundário, enquanto nós nos ficamos por uns significativos 11,3 e a média dos 15 se cifra nos 42 por cento. Estes números são obviamente preocupantes quanto ao que nos espera na Europa a 25.

Mas o que nos põe verdadeiramente fora de jogo são os indicadores sobre o futuro. A frieza dos números patenteia o atraso. Mas estamos a recuperar? Não! Estamos a cavar o fosso. É o que Eugénio Rosa mostra com o seu estudo. Com efeito, as taxas de abandono escolar dos nossos jovens entre os 18 e os 24 anos ( 45,5 por cento) são mais do que duas vezes superiores à média dos 15 (18,8 por cento) e cinco vezes superiores à média dos novos 10 (8,7 por cento).

FONTE:Público,10 de Julho

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Contigo Neruda me has dado la fraternidad y me enseñaste la bondad


"Ajuda-me poema do amor a restabelecer a integridade, a cantar sobre a dor.
É verdade que o mundo não se limpa de guerras, não se lava do sangue, não se corrige do ódio. É verdade.
Mas é igualmente verdade que nos abeiramos de uma evidência: os violentos reflectem-se no espelho do mundo e o seu rosto não é belo, nem para eles mesmos.
Continuo a crer na possibilidade do amor. Tenho a certeza do entendimento entre os seres humanos, conseguido sobre as dores, sobre o sangue e sobre os vidros partidos.(1)"
_________________
(1) Pablo Neruda in Confesso que Vivi

Com Neruda aprendi também que a Natureza pode constituir uma unidade vitoriosa com o Homem. Porque há só uma Terra.

domingo, 11 de julho de 2004

Como no mar o farol

Lurdes e Sophia

Duas mulheres notáveis, uma na poesia e outra na política. O meu amor por elas é vivo!

Maria de Lurdes Pintassilgo não hesitava na procura de um Estado mais solidário e mais inclusivo, onde imperasse a tolerância e o respeito pela pessoa.

A Sophia permanece: Tem qualquer coisa de mastro / Tem qualquer coisa de sol/ Saber que existe sossega / Como no mar o farol / (...) Espanta que seja real.

Ante o avassalador avanço da obesidade do betão e do chão asfaltado (1) e não hesitando em acusar com fúria e raiva (...) o demagogo / que se promove à sombra da palavra , prossigamos o sonho que sempre elas desejaram : Um país liberto / Uma vida limpa / Um tempo justo.


(1)Gonçalo Ribeiro Telles, in Mil Folhas, 10 de Julho de 2004
Todos os poemas são da Sophia

sábado, 10 de julho de 2004

DESTINO: CRASH?



O DEDO E A RODA

Era uma vez, lembram-se?
A necessidade é a mãe da evolução.
Das charruas ao automóvel, cinco mil anos passaram, milhares de dedos construíram.
O dedo do séc. XXI prime no GPS Porto-Madrid.
Querida, ligo o ar condicionado?


João Soares in Seixos Alvos, 2004

sexta-feira, 9 de julho de 2004

Novo Blog: Dias Com Árvores


Tenho a honra de vos anunciar que há mais um blog ambientalista e só dedicado ás Árvores:Dias Com Árvores
Mais uma realização dos meus amigos Paulo A.,Manuela R. e Maria C. (pois acabaram de publicar um excelente livro sobre as Árvores Monumentais do Porto), também sócios da Associação Campo Aberto e com os quais eu partilho a mesma paixão. 
Dias Com Árvores são dias bem passados!!

quinta-feira, 8 de julho de 2004

Apostar na eficiência energética é o caminho

Intensidade energética aumenta em Portugal e diminui na UE
Da Divergência Económica à "Divergência" Energética ?

Segunda-feira, 03 de Maio de 2004

A opção por sectores industriais fortemente consumidores, como a cerâmica e vidro, os cimentos e a pasta e papel, entre outros, condiciona irremediavelmente uma evolução favorável do consumo de energia por euro de riqueza nacional produzida

Feliz Mil-Homens* e Vítor Santos**

A União Europeia (UE) tem conseguido sistematicamente ter um crescimento económico superior ao crescimento do consumo de energia. Admitindo que séries temporais suficientemente longas esbatem o efeito das flutuações climáticas, que têm um peso significativo nos consumos dos países do Norte, somos levados a admitir que a intensidade energética do produto da economia europeia, tem diminuído ao longo do tempo. Por exemplo, de 1990 a 2000 o produto interno bruto (PIB) europeu cresceu à taxa média anual de 1,7 por cento ao ano, enquanto o consumo de energia primária cresceu no mesmo período à taxa média anual de 1,1 por cento, evidenciando uma elasticidade do consumo de energia relativamente ao PIB de cerca de 2/3. Este facto traduz-se numa redução da intensidade energética global do PIB de 0,7 por cento ao ano, com contributos diferenciados dos vários sectores.

Em Portugal, a evolução tem sido distinta (ver gráficos "O mapa da poluição" e "Nós e os outros"). Tomando o mesmo período como exemplo, entre 1990 e 2000, o PIB português cresceu à taxa média de 2,4 por cento, enquanto o consumo de energia primária cresceu à taxa média de 3,9 por cento, evidenciando assim uma elasticidade superior à unidade. Esta situação repete-se qualquer que seja o período escolhido nas últimas duas décadas.

Para o efeito muito terá contribuído o sector dos transportes (ver texto em caixa). Mas mesmo em sectores onde é mais estreita a ligação entre consumo de energia e produção de riqueza, como é o caso do sector industrial, os efeitos de natureza estrutural, relacionados com opções de desenvolvimento económico, tiveram uma influência determinante no consumo de energia e, por consequência, na intensidade energética levando a uma deriva negativa desse indicador tendo como referência a UE. De facto durante a década de noventa, o produto industrial europeu em valor regrediu nos anos de 1992 e 1993 e aumentou nos restantes; o saldo global entre 1990 e 1998 é de um acréscimo, em termos reais de 11,3 por cento do produto industrial europeu. No entanto, o consumo de energia final do sector, no mesmo período, diminuiu cerca um por cento, o que se traduz em ganhos de intensidade energética do produto industrial da ordem de 1,5 por cento ao ano, durante o período em análise.

Em Portugal, no mesmo período, o produto industrial aumentou em valor cerca de 13,5 por cento, mas o consumo de energia final do sector aumentou cerca de 34 por cento, o que se traduz numa degradação da intensidade energética do valor acrescentado industrial da ordem dos dois por cento ao ano, durante o mesmo período (ver gráfico "Melhor é possível").

Ganhos de eficiência "comidos"
Esta análise geral esconde uma realidade muito complexa e não deve conduzir à conclusão imediata e simplista, de que no sector se está a degradar a eficiência com que se consome a energia. Na realidade, a razão entre o consumo de energia e o valor acrescentado do sector depende de, pelo menos, três ordens de factores. Em primeiro lugar o nível de actividade do sector; é imediato que quanto maior a actividade industrial maior será o consumo de energia. Em segundo lugar, a estrutura do sector; ou seja, para um mesmo nível de actividade, o sector será estruturalmente mais "energívoro" se na sua decomposição subsectorial contiver uma maior componente de indústria pesada como siderurgia, cimentos, etc. Finalmente, o consumo energético depende da eficiência energética em sentido estrito; ou seja, para o mesmo nível de actividade e composição estrutural, existe um grau de liberdade adicional resultante das tecnologias e dos modelos de organização utilizados, que condicionam os bens e serviços produzidos com a energia utilizada.

Uma análise detalhada ao consumo de energia final na indústria transformadora portuguesa na década de oitenta revelou que os ganhos de eficiência energética do sector que efectivamente se verificaram, à taxa média de 1,1 por cento ao ano, não se reflectiram no consumo de energia final do sector uma vez que foram "comidos" pelo aumento de actividade do sector e, sobretudo, pela alteração estrutural que ocorreu durante essa década, com reforço do peso das indústrias mais energia intensivas, nomeadamente metalomecânica e papel (para uma análise mais aprofundada sobre esta temática veja-se Mil-Homens, 1993, "Análise do Consumo de Energia Final na Indústria Transformadora Portuguesa, na Década de Oitenta", Tese de Mestrado ISEG).

Infelizmente não são conhecidas análises desagregadas deste tipo para a década de 1990, que seriam importantes para o conhecimento da evolução real da eficiência energética do sector. No entanto, os valores globais referidos acima, parecem indicar que durante a década de 1990 se manteve a tendência da década anterior, em que eventuais ganhos de eficiência foram compensados por alterações estruturais do sector, de modo que, a intensidade energética global do sector se degradou. Esta tese carece, naturalmente, de confirmação.

O caso irlandês
Para ilustrar o efeito de estrutura no consumo de energia final do sector industrial é interessante conhecer o caso irlandês. Neste país, entre 1990 e 1998, o produto industrial aumentou 128 por cento enquanto se mantinha, em termos absolutos, o consumo de energia final do sector. A evolução desses dois indicadores conduziu, na prática, a uma redução da intensidade energética de 58 por cento durante o período. Tal ficou a dever-se, sobretudo, a alterações estruturais do sector, com forte reforço de subsectores de alto valor acrescentado e baixa intensidade energética.

Naturalmente que as dinâmicas da evolução estrutural da indústria são ditadas pela ponderação de um conjunto variado de factores - emprego gerado, valor acrescentado nacional no produto final, desenvolvimento tecnológico, etc. -, que em geral se sobrepõem às razões de natureza energética. No entanto, as estratégias de desenvolvimento industrial têm impactes determinantes ao nível do consumo de energia e a opção por sectores industriais fortemente consumidores, como a cerâmica e vidro, os cimentos, a pasta e papel, etc., que em Portugal têm um peso muito importante, sendo justificável pelos factores referidos, condiciona irremediavelmente uma evolução favorável da intensidade energética da economia.

Apesar de tudo, o caso irlandês sugere que, a redução ou a estabilização da intensidade energética do produto industrial, não é apanágio dos países mais desenvolvidos já que, mesmo para países que sejam protagonistas de um processo de convergência acelerado, é possível optar por um modelo de desenvolvimento industrial que, simultaneamente, torne possível o crescimento rápido e o aumento da eficiência energética.

*Professor Adjunto do ISEL; **Professor Catedrático do ISEG

quarta-feira, 7 de julho de 2004

The Cave, por Steve Reich


Apresentação de Steve Reich
Por Jorge Lima Barreto

Steve Reich é um compositor americano nascido em 1935. Estudou filosofia na Universidade de Cornell (1953-57) e composição na Julliard School (1958-61) e no Mills College (1962-63) tendo sido aluno de, entre outros, Darius Milhaud e Luciano Berio. Trabalhou em S. Francisco no Tape Music Center, de 1964 a 65 e fundou o seu próprio estudio em Nova Iorque onde, desde 1965, começou a dar concertos com o seu próprio Ensemble. Recorria a ostinati, com grande economia de meios. Partia da conclusão da música electrónica de que com dois ou mais gravadores em desfazamento temporal produziam uma estrutura musical típica (deu o nome de phasing a este processo). Assim tornou-se numa das principais figuras da Música Minimal Repetitiva, criando trabalhos para o seu grupo com uso progressivo de instrumentos de percussão e, após uma visita ao Gana, iniciou tournées mundiais.
Inicialmente, e sem nunca ter abandonado a ideia, trabalhou com música para tape (uso político-social de vozes gravadas e manipuladas). Foi igualmente uma das principais figuras da Vídeo Música.

Obras sublimes, poéticas, texturas de repetição modal, extrema delicadeza na concepção rítmica e trabalhos encantatórios para pequenos grupos orquestrais ou instrumentos de solo.
Hoje é considerado um avatar da Nova Música Minimal Repetitiva e a sua influência estende-se, diáfana, em todos os círculos vanguardistas.

Sobre a Peça do vídeo (The Cave)
Trata-se de uma ópera, de 1993, que explora as raízes comuns do judaísmo, cristianismo e islamismo.

Sítios sobre Steve Reich
Uma bela homenagem à infância espiritual de grande parte do nosso ecos humano.

terça-feira, 6 de julho de 2004

Não nos lixem: cuidado mesmo muito cuidado

Vivemos num mundo muito incerto...no entanto há muitas razões e factos que apontam para que nós cidadãos conscientes não aceitemos brandamente soluções energéticas pouco saudáveis. estou a falar em particular do ciclo fontes de obtenção de energia emissoras de poluição de partículas - saúde ambiental...que causam efeitos nefastos e permanentes em nós e no nosso planeta!!

Consultem e conheçam esta importante ONG Clean the Air e terão muitos factos...LIMPEM O AR!!

segunda-feira, 5 de julho de 2004

Cruzes universais e tranquilizantes: porque não nos libertamos deles?

Por vezes quando estou bastante indignado e irado, depois de tentativas frustradas em relação às expectativas que eu crio quando me envolvo ( geralmente demasiado) em prol de preservação do Ambiente e da Educação,depois de alguma fase de reparação das "ferrugens" continuo a achar que a culpa do estrago do mundo em que vivemos está nas opções que fazemos.

Deixo-vos, por conseguinte, com um texto escrito por mim, há já algum tempo qundo o publiquei no excelente jornal Portugal Indymedia.


Confúcio diz: “ Quando o infortúnio nos é trazido pelo Céu, temos a possibilidade de lhes escapar; mas quando somos nós que criamos o nosso próprio infortúnio, é impossível fugir dele”. Estas sábias palavras dizem que se quisermos ter a almejada vida feliz a única lei que devemos seguir é a lei da Natureza. Ora, nestes 30 anos de democracia e 18 na CEE creio que já é tempo de um discurso pela utopia, o possível que ainda não tem lugar, mas que está inscrito na ordem do real. Claro, estou a falar da política de ambiente. Pobre, sem recursos, menosprezada e no entanto, importantíssima e mobilizadora, se houver a atitude da dar exemplo: por um lado o Estado e seus principais representantes mas também pelos cidadãos. 

Por um lado, o cimento social do nosso País evidencia ainda uma sociedade atomisada, que se alimenta muito do e no espaço doméstico e paroquial. É renitente à mudança, facilmente cede a discursos sobre insegurança , porque não incutiu endógenamente a importância do associativismo e a importância de estar e exigir em ser bem informada. 
Tais gestos sociais são contrários às crescentes e necessárias alterações atitudinais de todos nós, importa ter coragem e determinação em sobrepor interesses colectivos a interesses privados, pois todos estamos perante uma crise global do Ambiente a níveis avassaladores: explosão demográfica, efeito de estufa, aquecimento global, aumento do buraco do ozono, destruição maciça das florestas tropicais, introdução de organismos genéticamente modificados. 


Por outro lado, esses atrasos forma acentuados por um sistema educativo que, à semelhança dos restantes ministérios, endógenamente peca por burocracia e é submetido a constantes mudanças. 
A iliteracia nos portugueses só muito recentemente tem vindo a diminuir. Em relação à Educação Ambiental existe nalguns programas escolares mais recentes, mas em relação ao serviço público é quase invisível. 
Os ministérios deviam cultivar uma estrutura efectivamente interdepartamental e preventiva. 
O Estado devia assumir a coragem da política de sustentabilidade e criar amplos mecanismos de interacção entre a sociedade civil e o próprio Estado, abolindo-se recíproca e endógenamente as relações de defesa, receio e bloqueio. 
Caso contrário, temos uma sociedade com a realidade que ainda hoje a comunicação social informou que 1/4 da população portuguesa anda a tomar tranquilizantes. 

Termino com as palavras de Prof. Viriato Soromenho-Marques “O pessimismo confunde utopia com atopia, o que ainda não existe com o que não poderá jamais existir” .

domingo, 4 de julho de 2004

Relatório Pintasilgo | População e Qualidade de Vida | Cuidar o Futuro


Comemora-se em 11 de Julho, o Dia Mundial da População, assim como o 10º aniversário da Conferência Internacional sobre a População e Desenvolvimento realizada no Cairo, promovida pelas Nações Unidas em Setembro de 1994. 

Sendo este um tema sempre actual, irei promover o debate no BioTerra sobre as implicações sócio-ambientais e novos problemas políticos e éticos provocadas pelos fenómenos populacionais do mundo moderno, tendo como base de trabalho o Relatório Pintasilgo, relembrando e contribuindo para a divulgação de tão importante documento idealizado pela Engª. Maria de Lourdes Pintasilgo, enquanto Presidente da Comissão Independente sobre a População e a Qualidade de Vida e que foi concluído em 1998. 

Trata-se de um Relatório pioneiro e muito exigente como era próprio do seu espírito. 

Não me repugna caminhos que não são tradicionais eis em suma o que a movia em tudo que se empenhou: na procura de soluções para reorganizar o espaço da Política, Trabalho, Educação, Ambiente e Justiça em prol do combate ao subdesenvolvimento e no aprofundamento da igualdade e da dignidade humana.

sábado, 3 de julho de 2004

Sophia de Mello Breyner - um dia...

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.


O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.


Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia,Sempre



sexta-feira, 2 de julho de 2004

GRANDE NUNO GRANDE

Nuno Grande numa entrevista na 'a Página'- Imaginem este texto data de 1998 e que Grande actualidade e que Grande visionário. No entanto, contra todos os seus avisos há tanto Estrago na Educação!!Transcrevo na íntegra porque esta entrevista é UMA AULA VIVA

A ESCOLA DEVE AFIRMAR-SE COMO UM CONTRA-PODER

NA ESCOLA NADA DEVE SER PREVISTO

A DOCÊNCIA É ACTIVIDADE SOCIALMENTE SUBESTIMADA


Nuno Grande dispensa apresentações. Figura emblemática do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), pró-reitor da Universidade do Porto e membro da Associação Europeia de Educação Médica, entre tantas outras referências, o convidado de 'a Página' é um comunicador por excelência, como se pode confirmar no relato de uma conversa que se pretendia orientada pela temática da educação.

Partindo do princípio que as sociedades atravessam uma fase de globalização, nomeadamente pela mundialização das comunicações e da economia, e que, paralelamente, se levantam novos problemas (ambientais, laborais, etc.) e se registam notáveis progressos científicos, pondo em causa valores e princípios civilizacionais, em que medida é que esta situação se implica nas questões da educação?

NG - É óbvio e evidente que tudo tem que ver com tudo. Tudo o que se passa à nossa volta acaba por nos influenciar, modelar e, de certa maneira, educar. Eu penso que o processo educativo é um processo permanente - nunca ninguém está completamente educado, nem completamente formado; até ao último momento da existência, há sempre coisas a fazer, a aprender, a modificar.
No sentido positivo, o que me impressiona na sociedade moderna é já não haver limites do ponto de vista dos temas que a sociedade debate. Sou suficientemente velho para me lembrar que havia temas apenas discutidos por certas elites, ou que só elas tinham acesso à informação necessária para os discutir. Hoje, essa barreira está ultrapassada. Com a globalização de que falava, não há temas exclusivos de elites, de pessoas especiais; toda a gente tem acesso a todas as formas de informação. A mundialização da informação vai (e está a faze-lo) modificar radicalmente as relações sociais e, consequentemente, as relações educativas.
Mas eu penso que isto tem, também, uma parte negativa. Se relacionarmos o saber com o poder, quem hoje tem mais poder continuam a ser as sociedades em que o saber é formulado e desenvolvido - o saber técnico especialmente. Lembro-me que uma das afirmações mais importantes na Constituição americana foi proferida por Thomas Jefferson: só é livre um povo que constrói o seu próprio saber. Isto tem uma implicação - com a tal mundialização do saber, nós absorvemos muita coisa que vem de outras culturas, sem criticar e sem procurar saber se a nossa cultura não teria alguma coisa a dizer em relação a esses saberes.
Eu creio que isto vai passar, que é um momento de transição e vamos ver que um grande número de culturas que hoje estão aparentemente uniformizadas vão começar a identificar-se, a tornar-se obviamente diferentes, criando os seus próprios saberes e, portanto, os seus próprios poderes. É um processo muito dinâmico. Sem nos darmos conta, vivemos uma autêntica revolução educativa permanente. Tudo está em mudança, dos hábitos aos valores, e, consequentemente, penso que este momento é uma espécie de laboratório cultural para alguém que está ligado à educação e quer contribuir para essa mudança.

Essa perspectiva da relação saber-poder recorda-me uma intervenção de Bruto da Costa, aquando de uma Presidência Aberta de Mário Soares em Setúbal, segundo o qual, ser pobre é estar destituído de poder, de poder de participação, de poder de decisão...

NG - Estou absolutamente de acordo. Há bastantes anos atrás, escrevi uma coisa - que na altura causou alguma controvérsia - no sentido de que só há uma forma de subdesenvolvimento, que é o subdesenvolvimento educativo. Os povos, por mais naturalmente ricos que sejam, serão sempre subdesenvolvidos se não forem capazes de utilizar essa riqueza natural em favor da promoção do Homem e do cidadão.
De facto, o pobre é sempre um inculto - no sentido da cultura técnica - e nós temos que lutar contra isso, porque não contribui para o equilíbrio da humanidade haver povos educativamente desiguais, profundamente desiguais como acontece hoje. Porque os que elaboram o saber estabelecido e o saber oficial são os que comandam, segundo interesses muito restritos e orientações que nada têm que ver com a paz e com a justiça social.

E é verdade, também, que arquitectam o edifício do saber à sua própria imagem, numa espécie de 'etnocentrismo cultural'...

NG - Neste caso, mais de etnocentrismo educativo. Porque as culturas acabam por se impor nem que seja marginalmente, em pequenos nichos que, muitas vezes, se manifestam contra o pensamento dominante e não conseguem sair da sua marginalidade. Ainda que haja algumas expressões dessas culturas muito fortes e que são capazes de vir a criar zonas de atrito e de tensão, mais do que de conflito. Mas eu acredito, volto a dizer, que estamos numa época de transição. Que estamos a assistir a uma grande mudança, no sentido da recuperação de alguns valores e referências que fizeram a civilização a que pertencemos.
Há dias, ouvi ao professor Daniel Sampaio uma coisa que me agradou muito. Ele dizia que já tinha visto o 'Titanic' três vezes, para tentar perceber porque é que o filme teve tanto êxito entre os adolescentes e concluiu que é por contar uma história de amor romântico, que se sobrepõe ao desagregar de uma estrutura inteira que vai afundar-se. Bom, eu ainda não vi o filme, mas acho que este êxito tem que ver com isso; acho que hoje há um regresso a valores educativos, uma necessidade de nos sobrepormos a interesses que têm o lucro como dimensão e que não olham a meios para atingir os seus fins. O processo educativo tem que remar contra essa maré, contra esse poder.

E como é que a Escola pode responder a esse desafio? Acha que ela está a dar conta do recado?

NG - A Escola só tem sentido se se afirmar como contra-poder. A Escola tem que ser alguma coisa que vá à frente das ambições do poder, e não a reboque. E o que tem acontecido é que tem andado a reboque. Quer dizer, a Escola é sempre a tal resposta bem arquitectada de quem tem o poder e o quer conservar.
Não é de agora, tem sido sempre assim. E quando consegue sair dessa postura e tornar-se, de facto, um fórum de elaboração de pensamento, de discussão de ideias, de regresso a referências de outro tipo, a Escola torna-se revolucionária no verdadeiro sentido do termo. Por isso os poderes constituídos não querem essa Escola, e nós vemos que, normalmente, quando a Escola aparece a reivindicar correctamente novas orientações, o faz à margem do sistema estabelecido; são escolas consideradas marginais por isso, gente estranha que defende coisas que não as que estão na lei ou no pensamento de quem domina.

Essa atitude revolucionária e essa mudança paradigmática implicam, para além de alguma vontade política, uma consciencialização dos profissionais que estão na docência, talvez mesmo uma outra profissionalidade docente...

NG - Exactamente, e eu acredito que os agentes sociais de todos os grupos, e de modo particular os professores, vêm assumindo a consciência de que têm um poder que até agora não sabiam que tinham.
É muito curioso assistir à evolução de algumas ideias. Por exemplo, hoje fala-se cada vez mais na necessidade da democracia participativa como processo de desenvolvimento. Em 1986, estive envolvido no movimento de apoio à candidatura presidencial da engenheira Pintasilgo e um dos padrões por que lutávamos era esse - fomos acusados de basismo, isto é, aquilo que era um apelo à participação dos cidadãos no seu próprio processo de desenvolvimento foi entendido como basismo no sentido negativo da palavra; hoje, já não há ninguém que lhe chame assim, todas as pessoas acham que se a democracia não for verdadeiramente participativa não existe.
Bom, eu acredito que alguma coisa de novo vai acontecer num prazo de não sei quanto tempo, mas que será breve. Os intervenientes neste processo (alunos e professores) vão ter que se tornar cúmplices, e vão faze-lo na busca de soluções para os problemas com que se vão defrontar enquanto pessoas e enquanto cidadãos. Enquanto não for assim, enquanto o professor estiver de um lado e os alunos do outro e esta cumplicidade não for conseguida, o poder estabelecido continuará a dominar a Escola.

Quando refere a cumplicidade entre professores e alunos, estende-a às famílias?

NG - Também, porque quando houver essa cumplicidade, ela traduzirá a consciência de que do outro lado está um sistema que habitualmente não tem referências personalizadas, que é cada vez menos personalizado - são as multinacionais, os programas internacionais...
Nós vivemos uma crise de líderes. O líder apareceu numa altura em que o poder se podia centrar numa pessoa (os hitlers, os salazares), mas hoje essas figuras deixaram de ser possíveis. Porquê? Porque o Poder está diluído nas máquinas de poder, que têm pessoas, mas que não têm cara própria. Ora, quando nós, cidadãos comuns, tomarmos consciência disso, vamos criar elos de cumplicidade que vão caracterizar o sistema educativo.
Há aqui uma coisa que a gente sabe hoje, é que nós já recebemos os alunos tarde, relativamente ao seu processo formativo. A partir dos 3 anos de idade, a criança tem todos os elementos para se definir enquanto personalidade, e, se assim é, recebê-los aos 5 ou 6 anos já significa um atraso. Ora, a cumplicidade tem de começar no seio da família. Da Família, que não é esta, mas de outro tipo, pelo seio da qual, muito provavelmente, passarão outros agentes sociais que com ela colaboram.

Defende, portanto, a existência de um currículo pré-Pré-Escolar, a desenvolver no seio da própria família...

NG - Exacto, na família e muito cedo. A instrução poderá começar a partir dos 5 anos, mas até aí há valores, atitudes e relações que a criança vai aprendendo e que têm de ser modeladas de alguma forma. Ela vai descobri-las sozinha, mas nós temos de ter um padrão de referência em que acreditemos todos, para que ela seja capaz de distinguir o que é bem e o que é mal, o que é verdade e o que é mentira; enfim, os valores que são intemporais e universais e sem os quais a civilização não tinha chagado onde chegou.
Eu acho que esse processo se deve passar na Família, mas é pedir demais a uma família em que pai e mãe trabalham até tarde, chegam a casa cansados e com problemas de toda a ordem e que têm de labutar para manter o equilíbrio mínimo no interior deste conjunto, que tenha, ainda, preocupação e tempo para mostrar a uma criança a diferença entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira. E isto tem de começar aos 3 anos!
Estes valores civilizacionais têm que voltar a ser ensinados na Família, no dia-a-dia; naturalmente, porque não precisam de cartilha nenhuma, basta a relação entre as pessoas ser nesse sentido.

Neste processo, há outra componente que parece estar hoje muito desajustada e que é a prática dos afectos no seio da família...

NG - Tudo passa por aí. Creio que foi o John Eckles, nos anos 20, que chamou a atenção para a importância dos afectos na formação, mesmo em termos de neurobiologia. Recentemente, o nosso António Damásio voltou a pegar na questão, mas na altura em que o Eckles encontrou o Karpov eles mostraram a importância que a relação humana tem na formação de cada um e nos conceitos que cada um tem de si próprio e do mundo que o rodeia. Mas o que todos pensávamos é que isso podia ser modelado a partir da idade escolar, e hoje sabemos que não, que aí já vamos encontrar valores estabelecidos, referências assumidas. Se não tivermos essa percepção, somos capazes de confundir mais uma criança, habituada a que determinado valor tem uma determinada referência que agora pode ser contrariada; a criança fica sem saber onde é que está a razão.
Por exemplo, houve o período em que o chamado castigo corporal era evitado para não traumatizar a criança. Hoje, sabemos que a traumatizamos muito mais porque ela esperava um castigo - evidentemente que não esperava uma violência, esperava um castigo; como não lhe era atribuído esse castigo, ela deixava de perceber o que é que estava certo e o que é que estava incorrecto; quando devia ter levado uma sapatada não levou, e depois, passados três dias, levou pela mesma razão. Este tipo de pequenas coisas, que constituem o quotidiano das famílias, tem hoje uma importância perfeitamente estabelecida relativamente à formação de cada um.

Referiu que se assiste a uma assimilação quase acrítica de informações provenientes de outras culturas, sem termos o cuidado de perceber se a nossa cultura tem algo a dizer em relação a esses saberes, periféricos ou mesmo longínquos. E que, nesta perspectiva, cabe à Escola fazer uma filtragem dessas culturas. A ser assim, não estaremos a pôr em risco o reconhecimento e o respeito pela diversidade?

NG - Pois, isso é o que tem sido feito até agora. O que tem sido feito é assumir os valores culturais de quem elabora os saberes, de quem tem a força e o poder...
Por acaso, estou a ler uma tese que vou ter de argumentar e que tem um título muito interessante - 'Da sardinha ao hamburger'. É um trabalho feito no sentido de pegar nas preferências gastronómicas de uma comunidade e, a partir delas, verificar que diferenças há entre os bisavós e as crianças de hoje relativamente à alimentação. E aí, felizmente, não mudamos muito. Mas o que vemos é que, progressivamente, os hábitos alimentares, e outros, de países que dominam a informação e a forma de publicitar os seus próprios hábitos e valores, começam a invadir a nossa cultura.
Aqui, a Escola tem o papel de dizer: 'Alto lá!, isto tem este sentido e isto tem aquele sentido'. Porque nós, enquanto educadores, não podemos assumir-nos como tendo a verdade absoluta na nossa mão. Como professor, fiz sempre um esforço de dizer aos outros aquilo que eu penso, afirmando que é aquilo que eu penso. Quando os alunos me perguntam que livro aconselho, eu digo sempre: 'A realidade e a natureza. O livro pode ser qualquer um, desde que te sirva apenas de instrumento para tu criticares o que vês. A educação é um processo de descoberta permanente, tu é que vais ver se isto é verdade ou é mentira; aquilo que eu digo na aula pode ser o meu ponto de vista e, por isso, ter muitas limitações'.

A meu ver, a Escola devia ter esta postura de abrir caminhos, de proporcionar descobertas. E, portanto, ao adquirir valores de outras culturas, confronta-los com os valores que assumimos e procurar estabelecer a tal diversidade, mostrando que isto é diverso daquilo, por isto ou por aquilo; que isto tem esta fundamentação e aquilo tem outra fundamentação.


Essa perspectiva remete, de novo, para a questão da ética profissional docente e, por extensão, para a formação de professores e para a sua (auto-)avaliação. Quer comentar?

NG - Aquilo que eu pressinto e percebo é que a docência é, mais do que nunca, uma actividade socialmente subestimada - vai para professor quem não sabe fazer mais nada; com raríssimas excepções, a maioria das pessoas quer um curso técnico e, não o tendo, ou não acedendo ao mercado de trabalho, vai para professor. Isto é uma completa inversão das coisas, porque o professor é o grande obreiro da estrutura do futuro.
Uma vez, visitava uma universidade americana e cá fora havia um pensamento do Emerson [Ralph] que dizia mais ou menos isto: o professor é o único profissional que se aproxima do divino, porque influencia tantas pessoas e gerações que ele próprio não é capaz de controlar. Eu percebi isto e fiquei um bocado aflito, porque aquilo que a gente faz e diz - o nosso exemplo - tem, de facto, uma importância enorme.
Ora, para se assumir esta responsabilidade tem que se gostar de ser professor e abraçar a docência com paixão. Mas é evidente que isto não se ensina; as pessoas vão para a docência por vocação e aprendem um certo número de estratégias para desenvolver a sua função. O que não é verdadeiramente certo é que isto se consiga contra a vontade, e como muitos professores o são contra a vontade não vão desempenhar bem a sua função; depois, estão metidos numa carreira que vão ter de cumprir exclusivamente com o objectivo de melhorarem a sua situação económica. Quero dizer, a carreira dos docentes, mesmo dos universitários, nunca é consequente a uma evolução pessoal; é sempre uma carreira para o grau imediato, em que se ganha mais e se tem mais poder - eu creio que isto é o retrato da formação dos docentes em quase todas as sociedades do mundo ocidental; é a competição que promove o desenvolvimento e não o desenvolvimento que leva à melhoria das condições.
Por mim, e tenho feito algum esforço nesse sentido, acho que vale a pena questionar permanentemente se aquilo que estou a fazer como professor ainda tem algum sentido, ou se já estou a mais. Como é que eu consigo avaliar isso? Testando as próprias relações com os meus alunos; em cada ano, procuro ver qual o grau de aproximação que consigo ter com eles, e por aí avalio se aquilo que estou a dizer, a postura que assumo, aquilo que sou, ainda tem algum sentido.
Não é este o sistema habitual de avaliação dos professores, e nós vemos alguns que atingem graus muito elevados na carreira e que nunca deveriam ter sido professores, porque não estão vocacionados para a arte de comunicar - é uma arte, mais do que uma ciência - e a gente vê que são pessoas, às vezes, com muito saber, mas que são repulsivas para os estudantes, que não se aproximam deles.
Acho que isto tem que ser repensado e revisto. Eu continuo a ter uma postura contrária à carreira universitária da forma como ela é feita. Acho que, de facto, os critérios utilizados na avaliação dos docentes são deficientes, que têm pouco a ver com a capacidade pedagógica e muito mais com a capacidade científica, com o prestígio que eles adquirem na sociedade e não com a função central, que é ensinar. É raro ver um concurso em que as características pedagógicas de um professor sejam salientadas; é um contra-senso, mas é assim, conta muito mais o número de trabalhos que publicou no estrangeiro, as revistas em que publicou.
Talvez nos outros graus de ensino não seja tanto assim, e haja outras formas de avaliar. Em todo o caso, não pressinto que sejam formas muito apuradas.

O processo de auto-avaliação que referiu, testando a sua aproximação aos seus alunos, deve permitir-lhe perceber para onde caminham os jovens de hoje...

NG - Essa questão é muito interessante, e eu tenho uma experiência curiosa.
Numa altura em que se diz que os alunos são piores, eu tive o melhor curso de sempre há cinco anos. Os rapazes que este ano se licenciaram em Medicina foram o melhor curso que eu tive em 41 anos de docência. De facto, nunca tinha tido um lote de 12 alunos de muito bom em Anatomia. E porquê? Porque foi possível que esses alunos progredissem quase independentemente de mim; no fim, disse aos meus colaboradores: 'eles são bons apesar de mim', foram capazes de encontrar caminhos e de questionar problemas.
Aliás, fizemos um conjunto de exames orais de grande qualidade - nós fazemos sempre exames orais, porque o exame tem de ser um acto relacional; o exame escrito, com as sebentas, não tem nenhum sentido; do exame final só são dispensados os alunos de suficiente ou os que chumbaram, os bons ou muito bons têm que o fazer.
Ora, isto acontece ao mesmo tempo em que sabemos - e eu como pró-reitor da Universidade tenho disso notícia diária - que há níveis de acesso muito baixos em termos de formação intelectual; mais de volume de conhecimentos do que de inteligência. Agora, o que me parece, e a minha pró-reitoria foi criada para estudar o problema do insucesso escolar, é que o sistema está totalmente desarticulado. Isto é, creio que a grande reforma a fazer era dar sentido vertical ao sistema, de maneira a que um aluno, quando chega ao primeiro ano da universidade, tenha os conhecimentos necessários para o fazer, e não, como acontece hoje, que saiba coisas que apenas serão úteis daí a três anos e não saiba nada do que deveria saber nesse ano, chumbando logo aí.
Há cerca de 10 anos, fiz um relatório em que procurei ver quais eram, na Universidade do Porto, as licenciaturas, anos e cadeiras que tinham maior insucesso escolar e cheguei à conclusão de que o aluno era tomado como se soubesse coisas que verdadeiramente ninguém lhe tinha ensinado. Era a partir desse pressuposto que o ensino era feito, e o aluno não percebia o que se estava a passar à sua volta.
E no que é que isto dá? Dá em que eles têm, provavelmente, pouco respeito pelo sistema em si. Eu acho que o aluno de hoje nos mede muito bem, nos conhece muito bem. E enquanto que o aluno do meu tempo respeitava o saber do professor, porque era um saber, como aconteceu comigo, que o acompanhava toda a vida, o aluno de hoje sabe que aquilo que o professor lhe disser no dia de trás já não é verdade no dia seguinte - basta carregar no botão da internete! Esta transitoriedade do saber pressupõe uma atitude, do lado do professor, de acompanhamento da mudança, e não o conflito latente entre um saber em transformação acelerada, a que o aluno tem acesso, e o saber do lente, que é estável.
Eu creio que os alunos de hoje, e ao contrário do que se tem dito, têm muito maior capacidade de análise do que saber; eles sabem pouco relativamente ao volume de conhecimento que deviam ter para estar na universidade, mas sabem que não sabem e sabem por que não sabem. É esta dialéctica que tem de ser estabelecida, a relação entre a universidade e os seus alunos tem de ser feita neste sentido: o que é que eles sabem, porque é que só sabem ou porque é que não sabem. E isto não tem sido conseguido.
Eu acredito muito nesta geração. Tenho uma grande esperança que venha a ser ela - e tem que ser, não há outra - a encontrar a relação entre os diversos componentes do sistema e a torna-lo mais lógico, mais útil.

Isso implica, também, a identidade das escolas, a cultura organizacional de cada estabelecimento. Essa ideia de cultura/identidade não estará um pouco arredada das nossas escolas?

NG - Claro. Está, mas esse não é apenas um problema português. Há, de facto, uma uniformidade de objectivos, quer educacionais, quer institucionais, que é assustadora.
Esta escola [ICBAS] tem procurado definir a sua própria identidade exactamente por ter sido a primeira em Portugal - e creio que ainda é a única - que é multidisciplinar e multiprofissional. Isto tem logo um aspecto de mudança muito grande, porque lado a lado sentam-se jovens que vão falar linguagens profissionais diferentes e que vão aprender as mesmas coisas em conjunto. Mas tem, além disso, o pensamento do professor Abel Salazar - que tem sido, de facto, um guia desta escola -, que dizia que um médico que só sabe medicina nem medicina sabe.
Nós temos procurado que os nossos alunos sejam nossos parceiros no desenvolvimento das diversas fases da vida da escola; eles têm os seus programas culturais, técnicos ou não, que desenvolvem com o apoio da escola, mas com completa autonomia, procurando os seus próprios caminhos. E há uma coisa lindíssima que é a semana cultural, em que eles fazem debates sobre problemas de todo o tipo, para os quais convidam especialistas que conseguem trazer de todo o mundo; fazem umas barraquinhas de venda de artesanato e trazem as pessoas que fizeram esse artesanato, desde a Colômbia a Angola. É uma iniciativa exclusiva dos estudantes, e nunca pediram um tostão à escola. São eles que realizam essa semana, ao mesmo tempo que são ëobrigadosí a organizar um congresso médico (os da medicina) ou de biologia aquática.
Esta tentativa de os chamar à acção directa na escola dá identidade à escola, e é esta identidade que temos estado todos a desenvolver. E eu quero dizer que estou a três anos e meio do fim da minha vida profissional e sinto uma alegria imensa porque já estou substituído; hoje posso perfeitamente ficar a dormir em casa, porque no meu departamento as coisas correm normalmente e a escola há muito tempo que quase não tem nada a ver comigo. Este ano, é a primeira vez que não estou num órgão directivo da escola, mas nos outros anos eu já estava muito colateralmente; estava como o velho do lado que ia dizendo [risos] assim uma coisas... De resto, foram os jovens que pegaram na escola e que estão hoje a dirigi-la: pessoas formadas cá e outras que, ainda que não formadas, vieram muito cedo para cá. Nós fomentamos que sejam os jovens a pegar nisto e a desenvolver a escola.

O que favorece uma maior mobilidade...

NG - Muito mais mobilidade! Mas sem essa mobilidade o sistema educativo não tem sentido, passa a ser um sistema muito militarizado, no sentido de que tudo está previsto.
Na escola tem que ser ao contrário. Nada deve estar previsto, a não ser o horário - e mesmo o horário, é só para não entrarmos dois na mesma sala.

Mas essa não parece ser a situação que se vive na generalidade das nossas escolas, públicas ou privadas.

NG - Não! Nas públicas não é, continua a haver um sistema rígido. Curiosamente, talvez menos rígido do que há 10 anos, mas continua a ser muito segundo o esquema aula teórica-aula prática-aula teórica, com programas pré-conhecidos e publicados, e não se pode sair daquilo. Nas escolas mais tradicionais, espera-se que as pessoas envelheçam nos graus académicos mais elevados, para depois tomarem conta da escola...
Há que mudar tudo isto! Hoje começa a haver alguma coisa, e por isso eu digo que estamos num período de transição. Há alguma coisa que começa... O aluno perdeu o receio da Escola, mas também corre o risco de lhe perder o respeito.
E é aqui, neste balanço entre o não ter receio da Escola, mas manter o respeito por ela, que reside a mudança necessária. É isso que temos tentado fazer no ICBAS, que o aluno sinta que está em sua casa, mas que há regras mínimas a cumprir por todos nós.

Para terminar, e voltando um pouco atrás, considera que a formação dos alunos até ao Secundário é inadequada às exigências universitárias ou é a Universidade que se sobrevaloriza, elevando o seu patamar de exigência?

NG - Não se trata de sobrevalorização. O que há, de facto, é uma desarticulação vertical do sistema, e muito provavelmente passa-se o mesmo entre o Secundário e o Básico.
Uma vez, como pró-reitor, reuni vários colegas que tinham índices de insucesso escolar muito altos e um deles disse: 'Ah, eu reprovo-os porque eles não sabem isto e isto e isto...' - 'e você já disse isso a alguém? E por outro lado, se eles não sabem, a sua obrigação é ensinar-lhes. Se descobre que um aluno não sabe uma determinada matéria, o senhor não pode partir do pressuposto de que ele deveria saber; tem de o ensinar. É para isso que está aqui'.
Mas ele não entendia isso; ele recebia os alunos e eles tinham que ter um determinado grau de aprendizagem. Se não sabiam, que soubessem. E, portanto, cilindrava-os na ordem dos 90 e tal por cento. Até que acabou por ser vítima disso: os alunos fizeram-lhe um boicote às aulas práticas e teóricas e, como ele ainda não era de nomeação definitiva, teve que ser dispensado - mas demorou anos, a chumbar 90 e tal alunos por ano e eu disse-lhe: 'Mas eu não acredito em gerações de estúpidos, portanto o senhor está a ensinar mal'.
O que me parece, fundamentalmente, é que há uma profunda desarticulação vertical; que não há diálogo entre os diversos níveis de ensino, de maneira a podermos dizer qual é o mínimo que cada aluno que entra na universidade deve saber nas respectivas disciplinas e áreas. Penso que 5 ou 6 pessoas sentadas numa secretária durante um ano cronológico faziam a reforma total.
Quanto aos jovens, não são piores, em termos humanos nem intelectuais, que os da minha geração. Longe disso, têm hoje mais acesso à informação, são capazes de a criticar e têm um à-vontade social que as pessoas do meu tempo não tinham. E também, como diria a minha avó, graças a Deus que agora não há PIDE - no nosso tempo, a gente estava sempre a pensar o que é que os outros estavam a pensar, com medo que descobrissem [risos].

António Baldaia

quinta-feira, 1 de julho de 2004

Coisas estivais

Por Bernardino Guimarães, JN 29/06/04

1) Não sei se já muitos se lembram, mas o Verão passado, com o seu calor excepcional, trouxe consigo -- para lá dos fogos nas matas -- um número impressionante de mortes. Idosos e outras pessoas mais fragilizadas foram vítimas de um drama silencioso e letal. Na Europa progressiva e próspera, o fenómeno espanta: em França houve milhares de falecimentos devido ao calor, apanhando o Estado impotente e a opinião púbica a banhos. Em muitos outros países, algo parecido. Por cá, o Ministério da Saúde só contabilizou as perdas humanas volvidos meses, - e foram muitas, infelizmente. Isto diz-nos alguma coisa sobre a sociedade em que vivemos, as condições ambientais das nossas cidades, e não apenas sobre a impreparação dos sistemas de socorro e da administração. A indiferença em relação aos elos mais frágeis da cadeia social, novas formas de marginalização, abandono dos mais velhos, são mazelas na origem do drama estival. A fazer-nos reflectir seriamente. E, a propósito, estaremos agora melhor preparados para que se não dê o mesmo este Verão?

2) No interior desta tragédia (como ficou claro nos estudos realizados em França) há aspectos ambientais a considerar. A conjugação do forte aumento da temperatura com a contaminação da atmosfera, em particular nas cidades, por poluentes diversos, produz consequências nefastas, em primeira linha para idosos, doentes e crianças.
Vários factores, que incluem o descuido na concepção arquitectónica dos edifícios e nos materiais utilizados na construção, a ausência de suficientes zonas verdes e a impermeabilização dos solos, o reinado absoluto do automóvel, concorrem para tornar uma cidade irrespirável, com áreas de desconforto térmico acentuado. A qualidade do ar, essa, continua a não ser uma prioridade para quem decide.

3) Ainda há dias, três concelhos -- Santo Tirso, Paços de Ferreira e Estarreja -- foram alvo de um «alerta máximo» a toda a população devido à presença de níveis elevados de ozono. Este gás, que tão útil é na alta atmosfera (defende-nos e à Terra da crueza dos raios ultra-violeta) pode tornar-se um grave poluente ao nível do solo, ameaçando seriamente a saúde pública, sobretudo as crianças e os que sofrem de doenças respiratórias. A sua ocorrência em tão grandes quantidades deve-se a poluentes (óxidos de azoto, compostos orgânicos voláteis) lançados pelos automóveis, indústrias e outras fontes, e é potenciada pelo calor.

Este alerta, inédito em Portugal parece significar uma maior atenção das autoridades ao problema. O que bem se justifica: as emissões de ozono aumentaram 26% por cá, entre 1990 e 2000 -- enquanto diminuíram em toda a restante Europa!
Mas, como denunciou a Quercus, o Ministério do Ambiente não pode seguir estas situações nem lançar alertas de poluição aos fins de semana e feriados, por falta de meios. O que significa que algo está mal nas prioridades governamentais. A informação ao público é decisiva. Temos, todos, o direito a saber o que andamos a respirar -- e a verdade é que não sabemos. Se outro fosse o seguimento da poluição do ar, quantos «alertas» não teriam já sido necessários?